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Boias-frias em cena: bois, sombras e barcas dos loucos

John C. DAWSEY
décembre 2016

Résumés   

Résumé

Scène élargie. Vie et théâtre se touchent. Boias-frias en scène. Dans les années 1980, dans les bétaillères des camions, un climat d'épuisement physique et nerveux se mélange avec celui d’une fête « carnavalisante ». Il n’y a pas d’exemple plus éloquent de notre condition d’homo ludens que l’irruption de ces mises en scènes et de ces jeux. Sur ces scènes, nous sommes aussi surpris par la manifestation exubérante de l’homo performans. Théâtre insolite. Au milieu des rires, sur les scènes d’un quotidien effrayant, les boias-frias se transformaient en de multiples personnages : cheikhs, Apaches, saints, fous, guides, bœufs, beaufs, playboys, cowboys, épouvantails et fantômes, entre autres. Dans le présent texte, je me concentrerai sur trois d’entre eux : « ombres ou spectres »; « bœufs agonisants et joueurs »; « passagers de la nef des fous dans l’océan des canneraies ». L’affinité entre ces mises en scène et le théâtre de la cruauté dont parlait Antonin Artaud attire l’attention. Le théâtre de la cruauté de les boias-frias nous mènent à repenser certaines formulations de l’anthropologie de la performance. À la fin, trois questions se présentent : la place de la dissonance dans la performance; l'expérience de  l’extraordinaire ou effrayant quotidien; et l'expression des corps qui révèle l’expérience d’un sparagmos, ou de corps en morceaux, corps sans organes.

Abstract

Expanded stage. Life and theater touch each other. Boias-frias on stage. During the 1980s, on truck wagons, an atmosphere of physical and nervous exhaustion interpenetrates with that of a carnival festival. There is no example more eloquent of our condition of homo ludens than the playfulness and play acting which erupt on such stages. Here we also encounter the exuberant manifestation of homo performans. This is an unusual theater. Amidst laughter, on the stages of astounding everyday life, boias-frias transform themselves into multiple characters: sheikhs, Apaches, saints, fools, bandits, bulls, cows, cowboys, playboys, scarecrows and ghosts, among others. In this essay, I intend to discuss three of them: shades or ghosts, agonizing and playful bulls, and passengers on ships of fools sailing on the green seas of sugarcane fields. Affinities between these everyday stage acts and Antonin Artaud’s theater of cruelty deserve attention.  As we shall see, boia-fria theater of cruelty leads us to rethink some of the propositions of anthropology of performance. In the end, three questions are presented: dissonance in performance; extraordinary or astounding everyday experience; and bodily expression revealed as sparagmos or dismemberment, or bodies without organs.

Resumo

Cena expandida. Vida e teatro se tocam. Boias-frias em cena. Nos anos 1980, em carrocerias de caminhões, um clima de esgotamento físico e nervoso se interpenetra com o de uma festa carnavalizante. Não há exemplo mais eloquente de nossa condição de homo ludens do que as encenações e brincadeiras que ali irrompem. Nesses palcos, também nos surpreendemos com a manifestação exuberante de homo performans. Teatro insólito. Em meio a risos, nos palcos de um espantoso cotidiano, boias-frias se transformam em múltiplas personagens: sheiks, apaches, santos, loucos, bandidos, bois, boys, cauboys, espantalhos e assombrações, entre outras. Neste ensaio, pretendo focar três delas: sombras ou assombrações; bois agonizantes e brincalhões; e passageiros de barcas dos loucos no mar verde dos canaviais. Chama atenção afinidades entre essas encenações e o teatro da crueldade sobre qual fala Antonin Artaud.  A partir do teatro da crueldade dos boias-frias somos levados a repensar algumas das formulações da antropologia da performance. No final três questões se apresentam: o lugar da dissonância na performance; a experiência do extraordinário ou espantoso cotidiano; e a expressão dos corpos que se  revela numa experiência de sparagmos, ou de corpos em pedaços, corpos sem órgãos.

Index   

Index de mots-clés : performance, Boias-frias, théâtre de la cruauté, rites de passage, rire.
Index by keyword : performance, Boias-frias, theater of cruelty, rites of passage, laughter.
Índice de palavras-chaves : performance, Boias-frias, teatro da crueldade, ritos de passagem, riso.

Texte intégral   

1Cena expandida. Vida e teatro se tocam. Boias-frias em cena. Nos anos 1980, em carrocerias de caminhões de boias-frias, na região canavieira de Piracicaba, São Paulo, um clima de esgotamento físico e nervoso se interpenetra com o de uma festa carnavalizante. Não há exemplo mais eloquente de nossa condição de homo ludens (Huizinga, 1993) do que as encenações e brincadeiras que ali irrompem. Nesses palcos, também nos surpreendemos com a manifestação exuberante de homo performans (Turner, 1987, p. 81). Nos canaviais e nas carrocerias de caminhões se revela um teatro dos boias-frias. E, como veremos, um teatro da crueldade.

2Teatro insólito. Em meio a risos, nos palcos de um espantoso cotidiano, boias-frias se transformavam em múltiplas personagens: sheiks, apaches, santos, loucos, conselheiros, Lampião e Maria Bonita, bois, boys, cauboys, Michael Jackson, Margaret Thatcher, espantalhos e assombrações, entre outras. Neste ensaio, pretendo focar três delas: sombras ou assombrações; bois agonizantes e brincalhões; e passageiros de barcas dos loucos no mar verde dos canaviais. Chama atenção afinidades entre essas encenações e o teatro da crueldade sobre qual fala Antonin Artaud.

3Teatro da crueldade. “A palavra crueldade deve ser considerada num sentido amplo. (...) Do ponto de vista do espírito, a crueldade significa rigor, aplicação e decisão implacáveis, determinação irreversível, absoluta.” (Artaud, 1999, p. 117-118). A erupção dos risos, ruídos e sons lancinantes de quem se lança em meio ao perigo. Num teatro como este se extraem “ideias cuja força viva é idêntica à da fome” (Artaud, 1999, p. 1).

4Como será visto, as três personagens acima referidas nos levam a repensar algumas das formulações da antropologia da performance. De acordo com Victor Turner, a antropologia da performance articula-se a uma antropologia da experiência. A inspiração vem de Richard Schechner. “ Aprendi com ele (Schechner)”, diz Turner (1985, p. xi), “ que toda performance é ‘comportamento restaurado’, que o fogo do significado irrompe da fricção entre as madeiras duras e suaves do passado (...) e presente da experiência social e individual”. Esta ideia está no cerne da antropologia da experiência elaborada por Turner. A antropologia da performance faz parte de uma antropologia da experiência.

5Apoiando-se em Wilhelm Dilthey, Turner (1982a, p. 13) delineia cinco momentos em termos dos quais se pode analisar a experiência: 1) um desafio apresenta-se no plano da percepção, colocando a pessoa e seus esquemas de interpretação em estado de risco; 2) imagens do passado são evocadas; 3) emoções associadas a essas imagens são revividas; 4) imagens do passado articulam-se ao presente “numa relação musical”, possibilitando a criação do significado; e 5) uma expressão completa e realiza o processo da experiência. A palavra “performance”, diz Turner (1982b, p. 91), nos remete ao francês parfournir, “completar”, “realizar totalmente”.

6Creio que a primeira personagem discutida neste ensaio – “ sombras ou assombrações” – nos leva a repensar a “relação musical” de qual falam Turner e Dilthey. Como será visto, chama atenção, no caso dos boias-frias, a dissonância da relação musical.

7A segunda personagem se refere a “passageiros de uma barca dos loucos no mar verde dos canaviais”. Com ela repensamos a concepção de passagem. Da raíz indo-europeia per – “correr riscos, aventurar-se” – possivelmente deriva a palavra grega perao –  “passar por”. De perao, a ideia do rito de passagem. De per também deriva o termo “ perigo”. A palavra “experiência” também deriva de “per”. Experiência tem a ver com perigo. As passagens são perigosas. Nelas se constituem experiências marcantes (Turner, 1986, p. 34; 1982a, p. 17; cf. Gagnebin, 1994, p. 66).

8O acontecimento de quem se torna boia-fria, ou, como se diz no interior de São Paulo, de quem “cai na cana”, evoca uma espécie de rito de passagem1. A experiência, nesse caso, é particularmente insólita: trata-se de uma passagem para uma condição de passagem (Dawsey, 1997; 2013).

9A terceira personagem deste ensaio – “ bois agonizantes e brincalhões” – também nos leva a repensar a formulação de uma antropologia da performance no registro da experiência. De acordo com Turner (1982a, p. 14), uma experiência se completa ou realiza através de uma performance, ou forma de expressão.  Performance, diz Turner, é a expressão de uma experiência. A etimologia do termo “expressão” merece destaque. Dilthey faz uso do termo alemão Ausdruck, uma “expressão”. Ausdrucken significa, literalmente, “espremer”, como quem produz o suco de uma laranja (Turner, 1982a, p. 13). Ou tira o caldo da cana. Para Turner e Dilthey, assim se produz um significado. No registro do teatro da crueldade, vira-se bagaço.

10No processo de moagem da cana, observa-se o despedaçamento. Algo se decompõe. Trata-se de um sparagmos ou desmembramento de um corpo. A partir da experiência dos boias-frias – ou de um corpo que vira bagaço – somos levados a repensar a noção de “ comportamento restaurado” de Schechner, ou seja, a ideia de performance como uma espécie de montagem de pedaços de comportamento.

11A seguir, a apresentação das três personagens. Elas surgem de registros em cadernos de campo dos anos 1980. Cada uma delas se manifesta em canaviais e carrocerias de caminhões, nos palcos do teatro cotidiano dos boias-frias.

Primeira personagem: sombras,assombrações

12Agitar sombras. “O verdadeiro teatro”, diz Artaud (1999, p. 7), “continua a agitar sombras nas quais a vida nunca deixou de fremir”. Algumas das encenações mais frequentes de boias-frias em canaviais e carrocerias eram as de espantalhos e assombrações. “Espantalho!” “Assombração!” (03.08.1983). “Assombração, espantalho!” (09.08.1993).2 Devolviam ao público nas ruas e calçadas imagens sobre eles projetadas. Nas saídas ou entradas da cidade, dependurando-se dos traseiros de caminhões, rapazes da turma com as roupas cobertas de cinzas assustavam casais de namorados ou transeuntes desprevenidos fazendo o papel de assombrações. “Búúú!”

13Chama atenção o modo como certas figuras liminares, particularmente as do campo, assombram a cidade ao longo da história. Entre elas, os boias-frias. Nos anos 1970, em meio a um clima de embriaguez generalizada induzido por sonhos de progresso, irrompem os boias-frias no cenário nacional. Configura-se então um ato histórico de proporções míticas: a transformação dos canaviais paulistas no equivalente brasileiro dos campos de petróleo dos sheiks das arábias. Entranhas dos sonhos. Espantalhos, assombrações. Assim eram chamados. E assim brincavam. Cobertos de fuligem de cana queimada, com panos cobrindo as suas cabeças e emoldurando os seus rostos castigados pelo sol, davam sustos em transeuntes. Suscitavam o pasmo. Provocavam. Nas idas e vindas dos canaviais, no início dos dias e das noites, transformavam as tábuas de carrocerias de caminhões em palcos de um teatro cotidiano. Interrompiam o fluxo da cidade. Nos risos e gestos dos boias-frias se manifestava um teatro de assombrações.

14Sombras, assombrações. Boias-frias também se apresentaram como sheiks das arábias. Na saída da cidade, de madrugada, ao passar por um grupo de pessoas, um dos rapazes da turma, tal como um apresentador de circo, chama atenção para a figura de seu colega que está de pé no traseiro do caminhão, um boia-fria com panos brancos emoldurando o seu rosto: “Olha o sheik das Arábias!” “Diretamente da Arábia Saudita. O Sheik Pagé!” “Úu! Coisa! Você já viu um sheik? Aqui, ó!” (18.8.83). Também se anunciava, “ Olha o faraó do Egito!”. Essas montagens de um “boia-fria sheik” e “boia-fria faraó” não deixam de ser reveladoras. A figura do boia-fria arrepiou o imaginário social nos anos 1970, após a primeira “crise do petróleo” e derrocada do “milagre econômico” brasileiro. Sonhos de um Brasil gigante que, “deitado em berço esplêndido”, despertava, enfim, de uma sonolência secular eram perturbados pela recusa dos sheiks do petróleo de fornecerem combustível para o mundo do capitalismo industrial. Ainda sob os efeitos do “ milagre econômico”, num clima de quase embriaguez de uma nação movida pelo que Walter Benjamin chamaria de “ narcótico do progresso”, foram montados os grandes projetos nacionais visando a substituição de petróleo por cana-de-açúcar. Esta surgia com todo o brilho não apenas de um produto “moderno” (Graziano da Silva, 1981), exigindo altos investimentos de capital, mas de um produto que, por ser fonte de energia renovável, poderia dar sustentação aos projetos de desenvolvimento. Em meio aos conflitos sociais suscitados nesses anos de “modernização conservadora” uma imagem distante articulou-se com realidades bastante próximas: a dos faraós do Egito e suas obras faraônicas. Sob a perspectiva da “industrialização da agricultura”, a produção canavieira, porém, apresentava um problema: o ciclo da safra não havia sido totalmente mecanizado. Daí, a necessidade do aproveitamento sazonal de uma imensa quantidade de cortadores de cana. Nesse momento, numa das “cenas primordiais” (Berman, 1990, p. 148) da modernidade brasileira, irrompeu nas cidades e estradas, e no imaginário social, a figura do boia-fria cortador de cana. Boias-frias substituíram sheiks árabes. Nas carrocerias de caminhões andavam sheiks boias-frias.

15Rito de passagem insólito. Entranhas dos sonhos. Espantalhos, assombrações. Haveria nesses alegres espantalhos e assombrações a irrupção da experiência visceral de um escândalo lógico? Se uma imagem de corpo sem alma manifesta-se na figura do espantalho, a imagem inversa, de alma sem corpo, lampeja numa assombração. No imaginário social boias-frias foram associados ao reino dos mortos.

16Teatro da crueldade. Observa-se o despedaçamento do corpo. Sparagmos. O corpo dilacerado, marcado, cortado. Na luta com os canaviais se revela a cumplicidade entre o “pé-de-cana” e o trabalhador. O boia-fria que corta cana, também por ela, pela “cana brava”, ou melhor, por sua palha afiada (como navalha), é cortado. Às vezes, com seu próprio podão, ele se corta. “Filho da puta, não corto mais!” (03.08.1983). “ Espirrou sangue.” (03.10.1983). “Amputou o polegar.” (24.10.1983). Precisa ter muito cuidado com essas coisas” (o “gato” comentando sobre a mulher da turma que perdeu o polegar, 24.10.1983). “Ficou cega.” (13.07.1983). Nas relações entre boias-frias e canaviais, não se sabe quem derruba quem, se são os cortadores de cana que derrubam canaviais, ou canaviais que derrubam boias-frias.

17Em registros de cadernos, boias-frias se veem em uma luta com os “pés-de-cana”. “Estou cercado por cana brava! Ela quer me pegar!” (4.10.83). Fala-se em “cana brava”, “cana embramada”, “cana enfezada” (18.8.83). A bronca que certo dia levei de um turmeiro evoca uma paisagem: “Dêsse jeito...?! Pra cortar cana precisa ter raiva!” (13.07.1983). Os panos que emolduram os rostos dos boias-frias, e as calças compridas, usadas pelas mulheres por debaixo de saias e vestidos, são como uma armadura suave, em estilo árabe, usada debaixo do sol castigante, talhada para enfrentar os canaviais. “O sol a queima-roupa...” (29.08.1983). “Ai, esse sol está bravo, não está? Ontem o Mister Zé chegou da roça, não comeu nada. Foi direto deitar. Aquela tontura, aquelas dores, os olhos ardendo – quase cego.” (09.11.1983). A própria pele do corpo adquire a textura do couro, ou de uma couraça. “Rostos duros, ressequidos” (08.07.1983). A “pele esturricada, como terra de sertão” (08.07.1983). “Rugas que se afundam nos rostos, escorrem pelos olhos” (13.07.1983). As mãos calejadas, com calos inclusive sobre punhos e costas das mãos, formando “murundú”, levam as marcas de um corpo que se defronta com “cana brava” (08.07.1983).

18Essas relações também podem ser amorosas. Na palha da cana dos canaviais se faziam “ninhos de amor”. (Aliás, a imagem desbotada de Marilyn Monroe que vi na camiseta de uma moça ao subir na carroceria de um caminhão de boias-frias pela primeira vez, depois retornaria como o devaneio de quem estivesse “caindo na cana com Marilyn Monroe”)3. Nas interrupções do trabalho (tripalium), pessoas da turma sentavam-se nas “ruas” dos “eitos” e chupavam “mel” da cana. Também brindavam crianças, familiares e vizinhos com “cana da roça” ao chegarem dos canaviais.

19“O boia-fria é um pé-de-cana”, assim se dizia. A trajetória da cana vira metáfora do percurso dos boias-frias que voltam moídos do campo; “pés-de-cana” e boias-frias se transformam em bagaço. O trabalho nos canaviais produz um amortecimento dos sentidos, uma espécie de mortificação do corpo, em estilo barroco, evocativa dos momentos extraordinários de rituais de passagem. Mas, aqui, o extraordinário revela-se como cotidiano. “O corpo volta moído.” (08.07.1983; 13.07.1983; 24.06.1997). “Ó, o condenado aqui.” (passando a cana por uma moenda, 10.08.1983). “Quando amanheci... não era o meu corpo não.” (17.08.1983). “É uma dormição no corpo.” (08.11.1983). “Se penicar os braços e as pernas ele não sente.” (05.10.1984). “O corpo dele fica amortecido.” (05.10.1984). “ O corpo sacudindo sobre as tábuas...” (29.08.1983). “O povo trabalha fazendo penitência”. “Trabalha um pouco e já está ajoelhado.” (01.08.1983).

20Descrições da roupa de boias-frias evocam cenas de decomposição e rearranjos criativos. “Por um buraco do sapato direito, um dedão vem pela esquerda. E o do pé esquerdo irrompe pela direita. Roupas se desmancham, apodrecem.” (20.07.1983). “Ao meu lado, o ‘Rei Zumbi’. Na cabeça, uma cartola branca de plástico grampeado. Uma orelha escapa por um furo na cartola.” (8.7.83).

21Os objetos se transformam em alegorias. “A lona furada naquele vento gelado” (01.05.1983). “‘Pau’ ou poleiro, o assento trepida.” (08.07.1983). “Entre as tábuas soltas e materiais dispersos as pessoas se ajeitam no chão da carroceria” (08.07.1983). “De uma tampinha de garrafa, que se passava de mão em mão, a turma bebia.” (19.08.1983).

22Em meio à melancolia, o riso e a raiva. “Cortaram a lona com facões” (03.09.1983). “Carlos Bala jogou o seu novo podão no mato” (01.09.1984). “Pagé estraçalha o seu chapéu de palha” (10.08.1983) “Do fundo do caminhão, Benedito arremessa o seu sapato esburacado como um projétil sobre um canavial em chamas – ‘olha nós passando no meio do inferno’.” (01.08.1983)4.

Segunda personagem: passageiros de uma barca dos loucos no mar verde dos canaviais

23Loucura de Artaud. Lucidez dessa loucura. Carrocerias de caminhões de boias-frias se transformaram em barcas dos loucos no mar verde dos canaviais. De acordo com Victor Turner, os carnavais surgem como momentos extraordinários, ou interrupções do cotidiano. No mundo do capitalismo industrial, eles surgem como interrupções do trabalho. São como momentos de “loucura” que se contrapõem ao cotidiano. Mas, no caso dos boias-frias, os momentos carnavalizantes ocorrem no percurso do trabalho, ou nos próprios canaviais. Não se trata simplesmente de uma loucura que se contrapõe à normalidade do cotidiano. O próprio cotidiano do trabalho é visto como desvario. Na medida em que o espanto é cotidiano, não há nada surpreendente no espantoso.

24Nos encontros cotidianos com o canavial, boias-frias dramatizam a experiência do pasmo, do susto. “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?!” (01.09.1983). “Chegamos ao lugar onde o filho chora sem a mãe saber.” (16.08.1983). “Nem o diabo sabe que lugar é esse!” (04.11.1983). Pessoas que, antes de virem para a cidade, haviam sido agregados, meeiros ou pequenos arrendatários, agora, como boias-frias, reencontram-se com a terra. Mas, a terra não é mais lugar de morada. O lugar onde se fazia a “morada da vida” (Heredia, 1980) virou “terra de negócio” (Martins, 1991).

25Na abertura das marmitas e vasilhames de comida dos boias-frias também se deparava com um pasmo encenado, frequentemente, de forma lúdica. Nesses momentos, pessoas faziam expressões de susto ou de nojo, despertando risos. “Cadê a comida?!” “Pipoca??” (revirando a mochila, com olhar de espanto). “Esqueceram de mim!” “Azedou!” (Fazendo caretas.) “Tá fria! Cadê a boia-quente? Boia-fria precisa de boia-quente!” (Procurando a cachaça em baixo do banco, 20.07.1983). “Maldita, desgraçada, você está furada! Por isso estou sempre com fome!” (Conversando com a velha marmita, levantando-a ao sol, inspecionando-a minuciosamente, olhando pelos furinhos e frestas do alumínio corroído e amassado, para, então, num gesto de raiva, desferindo-lhe um chute, fazer irromper os risos da turma, 10.08.1983).

26“Boia-fria precisa de boia-quente!”. O termo boia-fria, enquanto metonímia das relações sociais, expressa alguns dos aspectos desconcertantes da experiência de quem enfrenta os canaviais. A “boia-quente” que no Norte de Minas e em outras regiões do Brasil marca as relações de quem trabalha em terras onde se faz a morada, agora marca as relações do boia-fria em “terras de negócio”. Em ambos os casos, o termo expressa uma relação com a terra, e o consumo de um produto da atividade de quem na terra trabalha. No caso do boia-fria, o termo expressa a experiência do deslocamento que é lida sob o signo da embriaguez. O boia-fria é um “pé-de-cana”.

27Nos velhos caminhões o insólito se manifesta de outras formas também. Ao darem passagem para um novo caminhão da Ford carregado de cana, uma pessoa da turma grita para o próprio caminhão na carroceria do qual está sentado: “Sai da estrada, caminhão velho, seu ferro-velho, sua baleia-fora-d’água! Deixa passar que esse é Ford novo!”. Outra responde: “Os pés-de-cana viajam melhor que os boias-frias, rá!” (risos) (01.08.1983).

28Na experiência do boia-fria, chuva se transforma em sinal de fome em vez de fartura. Havendo chuva, a queima da palha afiada da cana, procedimento necessário para garantir o uso de corpos sensíveis na safra, torna-se impossível, e os caminhões ou ônibus não conseguem fazer o percurso indo e vindo dos canaviais sem se afundarem em terras ou areias molhadas. Assim sendo, para trabalhadores que recebem de acordo com a quantia de cana cortada, chuva vira sinal de fome. “Os arubu lá em cima estão com fome, e de olho em quem está com fome aqui em baixo (risos).” (09.09.1983). “Não tem comida?! Fica a semana inteira sem almoçar e fim de semana também??” (17.09.1983) “Está louco! A gente só emagrece. Não sei o que é.” (05.11.1983). A exclamação lúdica que ouvi num caminhão num dia em que a chuva surpreendeu a turma numa madrugada no mar verde do canavial irrompeu com a energia de um surrealismo cotidiano: “Vamos morrer afogados nessa baleia encalhada no meio do canavial!” (20.07.1983).

29Em seus escritos sobre o teatro e a peste, Artaud (1999, p. 9) fala da chegada de um navio: o Grand Saint Antoine cuja atracação coincide com “uma maravilhosa explosão da peste”. “Como a peste”, escreve o autor (Artaud 1999, pp. 26-27), “o teatro é uma formidável convocação de forças que reconduzem o espírito (...) à origem de seus conflitos”. Através da peste “um gigantesco abscesso, tanto moral quanto social, é vazado; e, assim como a peste, o teatro existe para vazar abscessos coletivamente” (Artaud 1999, p. 28).

30Como dito antes, o carnaval cotidiano dos boias-frias instaura a experiência não apenas da “loucura”, mas, em termos dialéticos, de uma “loucura da loucura”. Nesse sentido, o caminhão de boias-frias, essa “baleia fora d’água”, se apresentou nos anos 1970 e 80 como uma “Nau dos Loucos”(narrenschiff) no mar verde dos canaviais, uma alegoria da loucura digna de figurar numa “história da loucura” escrita a contrapelo, fazendo ressoar o que se afunda, possivelmente, numa “arqueologia do silêncio” (cf. Foucault, 1978, p. 14). “Espelho meu, espelho meu, quem é mais louco que eu?” (Pagé se olhando no vidro do garrafãozinho manchado de cinzas de cana queimada; 30.08.1983). “Iiiiiiiáááá!” “O que foi?! Aqui não tem bunda mole não! Só tem maluco!” “Goiaba baixa as calças e mostra a bunda para a turma do outro caminhão” (19.8.83). Walter Benjamin (1985b, p. 226) escreve: “A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ é a regra”.

31Ao descrever a “Nau dos Loucos” que apareceu na paisagem da Renascença, Foucault (1978, p. 12) diz:

Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem.

32O boia-fria também era entregue a um “rio de mil braços”, a um “mar de mil caminhos”, e “a essa grande incerteza exterior a tudo”: o mercado.

Terceira personagem: bois agonizantes e brincalhões

33Em carrocerias de caminhões se apresentaram bois agonizantes e brincalhões. Teatro da crueldade. Tauromaquia. Ao passar por um caminhão de transporte de gado, um dos rapazes levanta-se e, fazendo um gracejo, grita: “Ê boi! Boia-fria! Sou boy!” (08.07.1983). Fantástica, essa junção de imagens também era real. Aparentemente arbitrária, a montagem evoca as rupturas, interrupções e travessias nas histórias de vida dos boias-frias. História de vida vira montagem. Boias-frias eram, muitas vezes, levados ao campo em caminhões originalmente destinados para o transporte de gado. Como gado de corte eram levados. O êxodo rural, que criava nas cidades do interior paulista uma reserva de força de trabalho periodicamente incorporada durante a safra da cana-de-açúcar como mão-de-obra volante boia-fria, era estimulada por um processo de substituição de pequenos produtores rurais por gado, e transformação de “terra de trabalho” em “terra de gado” (Garcia Jr., 1983). Substituídos por bois no campo, substituem aos bois nos caminhões.Assim, produzindo a matéria prima que impulsionou os grande projetos nacionais do Proálcool e Planalçúcar, o esforço do seu trabalho serviu para fornecer energia para máquinas que povoavam os sonhos de uma sociedade e, como realização de um desejo proibido, os sonhos de um boia-fria: ser dono de um carro. Nas interrupções do trabalho nos canaviais rapazes às vezes entravam em estados de devaneio: “Meu sonho é ter um Passat. Ummmm. Ó, eu.... uma mão no volante e outra aqui, ó.... a menina do lado, assim, ó. Aí você ia ver.” (03.08.1983). Nesses momentos, boias-frias viravam boys, os “filhinhos de papai”, com acesso a carros e garotas. Mas, as trepidações dos carros em que esses boys boias-frias andavam diariamente eram capazes de produzir efeitos de despertar. Nas carrocerias dos velhos caminhões, nos carros de boi transformados em carros de boias-frias, recuperados pelos “gatos” dos depósitos de “ferro-velho”, esses boys iam em direção aos canaviais. Boys boias-frias em caminhões de bois.

34Carcaças de caminhões. Chama atenção a cumplicidade dos boias-frias com os caminhões de bois. “O homem faz a máquina, e a máquina destrói o homem” (03.08.1983), disse-me Pagé, um dos cortadores de cana da turma, ao observar a aproximação de uma carregadeira no canavial. Se Pagé pensava em dizer algo que impressionasse a um aprendiz de boia-fria que também, por acaso, procurava se fazer passar por antropólogo, ele conseguiu.As carregadeiras eram responsáveis pela ampliação do número de “ruas” da cada “eito” sob a responsabilidade de cada trabalhador. O número dessas “ruas” havia passado de três para cinco, para dar passagem às carregadeiras. Em algumas regiões já se experimentava com um sistema de sete “ruas”. Antes de virem às cidades do interior paulista, onde viraram boias-frias, muitas dessas pessoas haviam sido substituídas no campo por tratores, carregadeiras e colheitadeiras. Muitas das pessoas que conheci vieram a Piracicaba nos anos 70 onde, na condição de peões de obras e serventes de pedreiros, ajudaram a construir a Caterpillar, uma multinacional produtora dos tratores e máquinas agrícolas que estavam tomando os seus lugares no campo. Após o término das obras, “caíram na cana”. Substituídos por máquinas no campo, ficariam sob a ameaça, na condição de boias-frias, de serem substituídos por máquinas colheitadeiras que, por ora, permaneciam nas vitrines da agroindústria.

35Nesse contexto, chamavam atenção as relações dos boias-frias com os velhos caminhões em cujas carrocerias andavam. Conversavam com os caminhões, xingavam os caminhões. Mesmo em sua revolta, expressavam cumplicidade com os velhos caminhões: “baleia fora d’água!”, “ferro-velho!”, “desgraça!”, “tem que voltar pro ferro-velho!”, “caminhão de pobre!”, “tenho horror de pobre!” (30.8.83). Nesses momentos, essas velhas máquinas adquiriam as qualidades imponderáveis de seres sensíveis. Os velhos caminhões sobre quais os boias-frias andavam eram obrigados, como já vimos, a dar passagem para os novos caminhões carregados de cana cortada. Os “produtos modernos”, tais como a cana-de-açúcar, associados ao processo de “industrialização da agricultura”, que tomavam o lugar dos “produtos tradicionais”, os chamados produtos “de pobre”, e dos seus produtores no campo, também deslocavam das estradas os velhos caminhões sobre quais andavam esses produtores agora transfigurados em boias-frias. Muitos caminhões de boias-frias, de fato, haviam sido “ressuscitados” dos “ferros-velhos”. Assim como os boias-frias, esses velhos caminhões, sob a ameaça constante de serem substituídos por novas máquinas, “viam-se” diante da perspectiva iminente de virarem fósseis recentes da modernidade.

36Numa sexta-feira à noite, após uma longa semana de trabalho, na volta do canavial para a cidade, o clima carnavalizante entre os boias-frias estava especialmente intenso. Numa subida longa e bem inclinada, na estrada de pista única, quando foi preciso diminuir sensivelmente a velocidade, ao passo de tartaruga, formou-se uma fila de carros e caminhões novos atrás do velho caminhão de turma. Tentativas de ultrapassagem eram frustradas pelo fluxo de tráfego vindo em direção contrária. Impacientes, alguns buzinaram. Outros roncaram motores. Nesse momento, dependurando-se da escadinha no traseiro da carroceria do caminhão, Goiaba brandiu o seu facão. Ainda desafiou: “Vem! Vem!” A seguir, baixando as calças, como um Gargântua urinando sobre os parisienses (Rabelais, 1991, p. 99), ele irrigou a estrada e, provavelmente, o carro que vinha logo atrás, na cola do velho caminhão (19.08.1983). O pessoal da turma chorava de rir. Do traseiro desse caminhão a turma olhava o seu mundo. Apesar da distância entre Piracicaba e Paris, talvez não seja um despropósito evocar O Camponês de Paris de Louis Aragon (1996) como forma de discutir o modo em que as dimensões oníricas do real se manifestam nos caminhões de turma. O comentário de Benjamin (1985a, p. 25) a respeito dos surrealistas é propício: pressentiam as energias revolucionárias que transparecem no “antiquado”, nas primeiras construções de ferro, nos objetos que começam a extinguir-se.

37Caminhões de bois. Carcaças de caminhões. Bois boias-frias. Bois brincalhões e agonísticos levados ao matadouro. Numa manhã, ao entrar numa estrada de terra vicinal rumo aos canaviais, o caminhão passou por um pasto onde havia um grupo de vacas e bois extremamente magros, quase cadavéricos. Na terra seca, ao lado, havia uma carcaça e caveira. A turma se emocionou. Várias pessoas, velhos, crianças, moças e rapazes, levantaram-se para ver do fundo do caminhão. “Ó, como estão magras!”, “Não tem capim!”, “É a fome, estão morrendo de fome!”.

38A seguir, o caminhão entrou numa estrada ladeada por antigas palmeiras imperiais ressecadas, descuidadas, algumas caídas, quebradas. Repentinamente, nos deparamos com uma cena extraordinária: as ruínas de um casarão. “Olha a mansão!” alguém disse. Risos pipocaram. “É a classe A!”. Alguns rachavam de rir (02.09.1983). Riam diante dos escombros de uma casa-grande, um fóssil recente do interior paulista. Nesse riso se detecta a força de um estremecimento. “À sombra da alegoria dos faraós embalsamados” – como diz a letra da música “Rancho da Goiabada”, de Aldir Blanc e João Bosco” – os boias-frias faziam uma festa carnavalizante.

39Teatro da crueldade. “A morte é crueldade, a ressurreição é crueldade” (Artaud 1999, p. 120). Cobertos de cinzas, bois boias-frias brincalhões irrompem com a força de uma festa de boi-bumbá.

Repensando performance

40Cena expandida. Boias-frias em cena. Arte e vida se tocam. Em canaviais e carrocerias de caminhões encontramos uma espécie de teatro da crueldade. A partir desse teatro repensamos algumas das formulações da antropologia da performance.

Dissonância: teatro de assombrações

41Ao descrever o conceito de experiência, visto como um processo do qual faz parte a performance, Victor Turner discute o modo como imagens do passado se articulam ao presente “numa relação musical”. No registro do teatro da crueldade dos boias-frias, ressalta-se o lugar da dissonância nessa relação. “O segredo do teatro no espaço é a dissonância”, diz Artaud (1999, p. 132). Chama atenção o riso dos boias-frias. Sombras se agitam. Teatro de assombrações. Entranhas dos sonhos. Em meio a um clima de embriaguez de uma sociedade movida por sonhos de progresso, irrompe o riso dos boias-frias.

Extraordinário ou espantoso cotidiano: naus dos loucos

42Em busca de um “verdadeiro teatro”, Artaud evoca experiências viscerais de ritos de passagem. “Narre o extraordinário”, ele diz (Artaud, 1999, p. 93). O percurso dos boias- frias também evoca uma passagem. Trata-se, nesse caso, de um rito de passagem insólito: a passagem para uma condição de passagem. Assim nos vemos diante de um extraordinário ou espantoso cotidiano.

43Na vertente dramatúrgica de estudos de performance, duas abordagens se distinguem. Ao passo que Erving Goffman se interessa pelo teatro da vida cotidiana, as atenções de Victor Turner se dirigem ao teatro desse teatro, ou ao meta-teatro da vida social. Diante do espantoso cotidiano dos boias-frias talvez seja preciso reunir as duas abordagens para discutir um meta-teatro cotidiano.

44De acordo com Turner, carnavais surgem em momentos extraordinários, ou interrupções do cotidiano. No caso dos boias-frias, o próprio cotidiano, visto como estado de desvario, produz a experiência carnavalizante. No mar verde dos canaviais navegam naus dos loucos. Espantoso cotidiano. Nada surpreendente no espantoso.

Expressão: bois e bagaço

45Em seus escritos Artaud (1999, p. 42) ataca um teatro que perdeu o sentido do perigo. Da raiz indo-europeia per, de qual deriva o termo “perigo”, também se forma a palavra “experiência”. Performance, diz Turner, é a expressão de uma experiência.

46Chama atenção, como vimos, a etimologia do termo “expressão” – Ausdruck, em alemão. Ausdrucken significa “espremer”, como quem tira o caldo da cana. No teatro dos boias-frias o percurso da cana vira metáfora da trajetória de boias-frias que voltam moídos do campo e se transformam em bagaço. Também relampeiam imagens de tauromaquia, de boias-frias em caminhões de bois. Na expressão dos corpos se revela a experiência de um sparagmos, ou de corpos em pedaços. Corpos sem órgãos, nos sugere Artaud (1976).

47A formulação de Turner – de que a antropologia da performance faz parte de uma antropologia da experiência – se inspira na ideia de “comportamento restaurado” de Richard Schechner (1985) – uma espécie de montagem de tiras ou pedaços de comportamento. No registro do teatro da crueldade os próprios corpos se decompõem em pedaços. Trata-se, afinal, da restauração dos corpos. Crueldade é rigor. Nesse teatro se produz um abalo diante do qual, diz Artaud (1999, p. 86), nenhum público permanece intacto.

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Notes   

1  De acordo com Arnold Van Gennep (2011) ritos de passagem são constituídos por três momentos: 1) ritos de separação, 2) ritos de transição, e 3) ritos de reagregação. A experiência de liminaridade refere-se, particularmente, ao segundo momento.

2  Em um dos fragmentos dos cadernos de campo, o Professor Pardal e uma moça do “Saravá” tiram sarro, rindo de Pagé: «Uuuuuu! Pagé boia-fria! Pé-de-cana! Assombração! » Depois do dia nos canaviais, Pagé está indo tomar banho numa bacia de água de chafariz. (03.08.1983).

3  Cf. Dawsey, 1997.

4  “Vapor do diabo”, a imagem expressiva encontrada por José Sérgio Leite Lopes (1978) em Pernambuco, não deixaria de evocar estruturas de sentimentos encontradas entre boias-frias do Estado de São Paulo.

Citation   

John C. DAWSEY, «Boias-frias em cena: bois, sombras e barcas dos loucos», Cultures-Kairós [En ligne], paru dans Théma, mis à  jour le : 21/12/2016, URL : https://revues.mshparisnord.fr:443/cultureskairos/index.php?id=1447.

Auteur   

Quelques mots à propos de :  John C. DAWSEY

John C. DAWSEY, Ph.D. em antropologia pela Emory University, é professor titular em Antropologia, na Universidade de São Paulo. É coordenador do Napedra – Núcleo de Antropologia, Performance e Drama. Tem interesse em antropologia e teatro, antropologia da performance, antropologia da experiência, e antropologia benjaminiana. Entre outros livros, publicou De que riem os boias-frias? Diários de antropologia e teatro (2013) e coorganizou Antropologia e Performance, ensaios Napedra (2013).